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Creatinina, taxa de filtração glomerular e albuminúria: como ler a função dos rins

Creatinina 'normal' não garante rim saudável, e creatinina um pouco alta em quem tem muito músculo pode ser normal. O que o médico olha é a taxa de filtração estimada e a albumina na urina.

Por Equipe Medicol · 19 de out. de 2026

Em resumo

A creatinina fica em geral entre 0,6 e 1,1 mg/dL em mulheres e 0,7 e 1,3 em homens, mas depende da massa muscular. O laboratório converte o valor em taxa de filtração glomerular estimada (TFG): 90 ou mais é normal; 60 a 89 é redução leve, que só é doença se houver outra alteração; abaixo de 60 por mais de 3 meses define doença renal crônica. A albuminúria (relação albumina/creatinina na urina acima de 30 mg/g) é o sinal mais precoce de dano, antes de a creatinina subir. Quem tem diabetes ou hipertensão deve fazer os dois exames todo ano.

O que mede
Creatinina: resíduo do metabolismo muscular eliminado pelos rins. TFG estimada: quanto os rins filtram por minuto, calculada a partir da creatinina, idade e sexo. Albuminúria: perda de proteína na urina.
Preparo
Hidratação normal; evitar exercício intenso e excesso de carne na véspera.
Jejum
Não é necessário.
Quando fazer
Anual para quem tem diabetes, hipertensão, doença cardiovascular, histórico familiar de doença renal ou uso crônico de anti-inflamatórios. Sem rastreio universal fora desses grupos.
Cobertura pelo plano
Rol da ANS, com pedido médico. Prazo de 3 dias úteis.
Estágios da função renal pela taxa de filtração glomerular e faixas de albuminúria
Estágios da TFG e faixas de albuminúria (KDIGO).
Valores de referência variam. As faixas abaixo são as mais usadas em adultos e servem para entender o laudo. Prevalece sempre a referência impressa no seu laudo (método e população do laboratório) e a interpretação do seu médico, que conhece idade, sexo, medicamentos e histórico.

Creatinina: o número e o seu problema

A creatinina vem dos músculos e é eliminada pelos rins; quando eles filtram menos, ela acumula. Mas a quantidade produzida depende de quanto músculo a pessoa tem: um homem jovem musculoso tem creatinina maior que uma mulher idosa magra, com rins igualmente saudáveis. Por isso a creatinina isolada engana nos dois sentidos: "normal" em quem tem pouca massa muscular pode esconder perda de função, e "alta" em atleta pode ser normal.

TFG estimada: o que importa

A taxa de filtração glomerular estimada corrige a creatinina por idade e sexo (fórmula CKD-EPI 2021, sem raça). Está impressa no laudo ao lado da creatinina, em mL/min/1,73 m².

EstágioTFG (mL/min/1,73 m²)Significado
G1≥ 90normal; só é doença renal se houver albuminúria ou alteração estrutural
G260 a 89redução leve; comum com a idade; idem acima
G3a45 a 59doença renal crônica leve a moderada, se persistir 3 meses
G3b30 a 44moderada a grave; acompanhamento com nefrologista
G415 a 29grave; preparo para terapia de substituição
G5< 15falência renal; diálise ou transplante

O diagnóstico de doença renal crônica exige TFG abaixo de 60 ou um marcador de dano (albuminúria, hematúria de origem renal, alteração em imagem) por mais de 3 meses. Uma TFG de 55 em um exame só, sem outra alteração, pede repetição em 3 meses, não um diagnóstico.

Albuminúria: o alerta precoce

É a relação entre albumina e creatinina numa amostra de urina (RAC), em mg/g:

  • A1: abaixo de 30 mg/g, normal a levemente aumentada.
  • A2: 30 a 300 mg/g, moderadamente aumentada (o antigo "microalbuminúria").
  • A3: acima de 300 mg/g, gravemente aumentada.

Em diabéticos e hipertensos, a albuminúria aparece anos antes de a creatinina subir, e é nela que o tratamento mais muda o rumo da doença. Exercício intenso, febre, infecção urinária e menstruação podem elevar a albuminúria por um dia; o diagnóstico exige duas de três amostras alteradas em 3 a 6 meses.

O que altera a creatinina sem doença renal

  • Desidratação e dieta muito rica em carne elevam.
  • Exercício intenso nas 24 horas anteriores eleva.
  • Suplemento de creatina eleva a creatinina sem afetar a filtração; avise o médico.
  • Alguns medicamentos reduzem a secreção de creatinina pelo rim e elevam o valor sem dano real: trimetoprima, cimetidina, alguns antivirais.
  • Pouca massa muscular, amputação, desnutrição e doenças musculares baixam a creatinina e superestimam a TFG. Nesses casos o médico pode pedir cistatina C.

Quem deve monitorar os rins

Creatinina com TFG e albuminúria uma vez por ano para quem tem diabetes, hipertensão, doença cardiovascular, obesidade, histórico familiar de doença renal, doenças autoimunes, infecções urinárias de repetição, pedras nos rins ou uso crônico de anti-inflamatórios. Fora desses grupos, não há rastreio universal recomendado.

Proteger os rins quando a função está reduzida

  • Controlar pressão (meta em geral abaixo de 130/80) e glicemia.
  • Evitar anti-inflamatórios não esteroides (ibuprofeno, diclofenaco, nimesulida) e ajustar doses de outros medicamentos pela TFG.
  • Avisar antes de exames com contraste iodado.
  • Parar de fumar; manter peso; reduzir sal.
  • Encaminhamento ao nefrologista com TFG abaixo de 30, albuminúria acima de 300 mg/g, queda rápida da função ou causa indefinida.

Perguntas frequentes

Minha creatinina é 1,4 e sou homem musculoso. É doença renal?

Não necessariamente. Veja a TFG estimada no laudo e, se estiver entre 60 e 89 sem albuminúria, é provável que seja a sua massa muscular. O médico pode confirmar com cistatina C, que não depende de músculo, e com um exame de urina.

TFG de 75 aos 70 anos é ruim?

É esperado para a idade e, sem albuminúria ou outra alteração, não é doença renal crônica. A filtração cai cerca de 1 mL/min por ano após os 40. Vale repetir anualmente se houver hipertensão ou diabetes.

Beber muita água melhora a creatinina?

Corrige a parte que era desidratação, nada além disso. Hidratação adequada é boa para os rins, mas 'lavar' os rins com água em excesso não melhora a filtração nem trata doença renal.

Fontes

  1. Sociedade Brasileira de Nefrologia · Doença renal crônica · SBN
  2. KDIGO 2024 · Clinical Practice Guideline for CKD · KDIGO
  3. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes · Diagnóstico · SBD