Em resumo
Um check-up adulto bem feito tem três partes: a consulta (história, pressão, peso, cintura, vacinas, hábitos), os rastreamentos com evidência para a sua idade e sexo (perfil lipídico, glicemia a partir dos 45, citopatológico, mamografia, sangue oculto ou colonoscopia a partir dos 50, PSA por decisão compartilhada) e os exames que a sua história pede (TSH com sintomas, função renal se hipertenso, ferritina se cansaço e anemia). O que não entra: painéis com dezenas de exames "para garantir", marcadores tumorais, exames de imagem de corpo inteiro e dosagens hormonais sem queixa.
Por que mais exames não é mais saúde
Cada exame tem cerca de 5% de chance de sair fora da faixa de referência em uma pessoa saudável, por definição estatística. Com 20 exames, a chance de pelo menos um asterisco é de 64%; com 40, passa de 85%. Cada asterisco gera repetição, exame complementar, às vezes biópsia, e sempre ansiedade. Os estudos que compararam check-ups amplos com atendimento normal não encontraram redução de mortalidade ou de doença grave. O que reduz são os rastreamentos específicos, nas idades certas, e o controle dos fatores de risco.
Parte 1: a consulta é o exame mais importante
- Pressão arterial medida direito (sentado, 5 minutos de repouso, braço apoiado), de preferência em duas medidas.
- Peso, altura e circunferência abdominal. IMC acima de 25 e cintura acima de 94 cm (homens) ou 80 cm (mulheres) mudam a lista de exames.
- História familiar: infarto ou AVC precoce, diabetes, câncer de mama, intestino, próstata, ovário. Isso antecipa rastreamentos.
- Hábitos: fumo, álcool, atividade física, sono, alimentação. É aqui que o médico ganha ou perde a consulta.
- Vacinas: tétano a cada 10 anos, hepatite B, influenza, e as da faixa etária.
- Sintomas que você vem ignorando. Cansaço, dor, alteração intestinal, sangramento, mudança de peso. Eles definem a parte 3.
Parte 2: os rastreamentos com evidência
| Exame | A partir de | Repetir |
|---|---|---|
| Perfil lipídico | 20 anos | 5 anos se normal |
| Glicemia ou hemoglobina glicada | 45 anos (antes com sobrepeso e risco) | 3 anos se normal |
| Citopatológico do colo do útero | 25 anos | 3 anos após 2 anuais normais |
| Mamografia | 40 (sociedades) ou 50 (MS) | 1 a 2 anos |
| Sangue oculto nas fezes ou colonoscopia | 50 (ou 45) | anual / 10 anos |
| PSA e toque | 50 (45 com risco), decisão compartilhada | 1 a 2 anos |
| Sorologias (HIV, sífilis, hepatites B e C) | ao menos uma vez na vida adulta | conforme exposição |
| Densitometria | 65 (mulheres), 70 (homens), antes com risco | 2 anos |
O guia de check-up por idade tem a versão completa, com as diferenças entre Ministério da Saúde e sociedades médicas.
Parte 3: o que a sua história pede
Aqui entram os exames que não são rastreio universal, mas fazem sentido para você:
- Hemograma e ferritina: cansaço, palidez, menstruação intensa, dieta restritiva.
- TSH: sintomas de tireoide, mulheres acima de 60, doença autoimune, planejamento de gravidez.
- Creatinina com TFG e albuminúria: hipertensão, diabetes, uso crônico de anti-inflamatório.
- TGO, TGP e GGT: álcool, sobrepeso com triglicérides altos, medicamentos que afetam o fígado.
- Vitamina D: só nos grupos de risco (idosos, osteoporose, má absorção, pouca exposição ao sol).
- Vitamina B12: vegetarianos estritos, idosos, uso prolongado de metformina ou omeprazol.
- Eletrocardiograma e teste ergométrico: sintomas ou risco cardiovascular alto, não como rotina em quem não tem nada.
O que não deveria estar no pedido
- Marcadores tumorais (CA-125, CEA, CA 19-9, AFP) em quem não tem sintoma: muitos falsos positivos, nenhum benefício como rastreio.
- Tomografia ou ressonância de corpo inteiro: acha "incidentalomas" que geram investigação e radiação sem reduzir mortalidade.
- Painéis hormonais (testosterona, cortisol, insulina, IGF-1) sem queixa.
- Dezenas de vitaminas e minerais: zinco, selênio, magnésio, cobre, sem indicação.
- Ecocardiograma sem sintoma, sopro ou doença cardíaca.
- Densitometria antes da idade sem fator de risco.
Se o pedido vem com isso tudo, pergunte ao médico o que cada exame responde. Pergunta boa: "se vier alterado, o que muda?". Se a resposta for "nada", o exame não precisa ser feito.
Como organizar
- Marque a consulta antes dos exames, não depois. O médico monta a lista pela sua história.
- Leve os laudos anteriores: tendência vale mais que um ponto.
- Faça os exames de sangue num só dia, de manhã, com o preparo certo, no mesmo laboratório dos anteriores.
- Receba o laudo e leia com calma o guia de como ler um resultado antes de pesquisar cada asterisco.
- Volte à consulta com tudo em mãos. O check-up termina na segunda consulta, não no laudo.
O plano cobre os exames pedidos com indicação, com prazo de 3 dias úteis para os de sangue e 10 para imagem; pacote de "check-up completo" sem critério pode ser negado em parte. Detalhes no guia de cobertura.
Perguntas frequentes
Check-up tem que ser todo ano?
A consulta, sim. Os exames seguem o intervalo de cada rastreio: perfil lipídico normal a cada 5 anos, glicemia a cada 3, mamografia a cada 1 ou 2. Repetir tudo todo ano não acrescenta proteção.
Posso fazer check-up direto no laboratório, sem médico?
Pode fazer exames, mas não check-up. Sem a consulta, não há quem decida o que faz sentido para você nem quem interprete o conjunto. E o plano de saúde não cobre exames sem pedido médico.
Qual especialista faz check-up?
Clínico geral ou médico de família. Cardiologista, endocrinologista e ginecologista entram quando há queixa ou risco específico. O ginecologista costuma fazer o check-up das mulheres na prática, mas o clínico cobre o conjunto.
Fontes
- Ministério da Saúde · Rastreamento de cânceres (INCA) · INCA / Ministério da Saúde
- Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes · Diagnóstico · SBD
- Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose (SBC) · Sociedade Brasileira de Cardiologia
- SBPC/ML · Sociedade Brasileira de Patologia Clínica / Medicina Laboratorial · SBPC/ML
- ANS · O que o seu plano de saúde deve cobrir (rol) · gov.br/ans
